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Rondônia entre o progresso e os desafios do campo: seminário da UNIR provoca reflexão sobre agronegócio, agricultura familiar e futuro da Amazônia

Durante encontro acadêmico em Rolim de Moura, pesquisadores analisaram a expansão agrícola, a redução da população rural, os conflitos fundiários e os desafios de conciliar crescimento econômico, justiça social e preservação ambiental.

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Desenvolvimento econômico, território e sociedade: que futuro está sendo construído em Rondônia?

Rondônia atravessa profundas transformações econômicas, territoriais e sociais. O crescimento das atividades agropecuárias, a modernização das propriedades rurais, a valorização da terra e a expansão da infraestrutura logística contribuem para modificar a economia do estado. Entretanto, essas mudanças também provocam questionamentos sobre a distribuição da riqueza, a permanência das famílias no campo e a preservação dos recursos naturais.

Essas questões estiveram no centro do seminário "Questão Agrária, Território e Agricultura Camponesa em Rondônia", realizado na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, no auditório da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Rolim de Moura.


Com o tema "Por territórios vivos, por agricultura camponesa, por um futuro sustentável na Amazônia!", o encontro promoveu um debate sobre a formação histórica do território rondoniense e os desafios enfrentados pelas comunidades rurais diante das transformações econômicas.

A programação reuniu pesquisadores, professores, estudantes e participantes ligados às questões do campo, proporcionando um espaço de reflexão sobre o desenvolvimento regional.

Entre os destaques esteve a segunda palestra do seminário, intitulada "Contextualização da Formação do Campesinato em Rondônia e os Desafios Atuais da Agricultura Camponesa", ministrada pelo professor doutor Ricardo Gilson da Costa Silva, da UNIR e coordenador do GTGA.

A apresentação contou com mediação da professora doutora Tatiane Rodrigues de Souza, também da UNIR, que conduziu as intervenções e os debates posteriores.

Em sua exposição, Ricardo Gilson apresentou estudos, mapas, dados demográficos e interpretações históricas sobre a expansão das atividades agropecuárias e as mudanças na organização territorial de Rondônia.

O pesquisador reconheceu a importância econômica da produção agrícola, mas defendeu que os resultados desse crescimento também sejam avaliados a partir de seus efeitos sociais e ambientais.

A questão que atravessou grande parte do encontro foi justamente essa: produzir mais significa, necessariamente, desenvolver melhor uma região?

A pergunta não coloca a produção agrícola e a preservação ambiental como atividades obrigatoriamente incompatíveis. Ela convida à reflexão sobre como o crescimento econômico pode ser planejado para gerar oportunidades, respeitar direitos e melhorar as condições de vida da população.

Da colonização à modernização: como Rondônia chegou ao atual modelo produtivo?

Para compreender as transformações contemporâneas, Ricardo Gilson recuperou parte da história da ocupação territorial de Rondônia, especialmente a partir da década de 1970.

Nesse período, a abertura de rodovias, os projetos de colonização e a chegada de milhares de migrantes contribuíram para estabelecer comunidades rurais, pequenas propriedades e novos municípios.

Famílias provenientes de diferentes regiões brasileiras passaram a desenvolver atividades como cafeicultura, produção de arroz, feijão e milho, pecuária leiteira e criação de animais.

A terra representava não apenas um instrumento de produção, mas também a possibilidade de construir uma vida, formar uma família e estabelecer vínculos comunitários.

Com o passar dos anos, a organização econômica do estado passou a apresentar novas características, principalmente com a expansão da pecuária, o crescimento da produção de grãos e o fortalecimento das relações comerciais com mercados nacionais e internacionais.

Na análise apresentada, a infraestrutura de transporte, os investimentos privados e as políticas de financiamento agrícola tiveram influência importante nesse processo.

Ricardo Gilson ressaltou que o Estado possui participação relevante no desenvolvimento econômico e na criação de condições para a produção.

"O Estado tem que fazer esse papel, tem que desenvolver a economia, induzir a economia."

A afirmação foi apresentada no contexto de uma discussão sobre financiamento público, investimentos, políticas agrícolas e a importância de instituições capazes de estimular diferentes setores produtivos.

O debate, entretanto, levantou uma questão adicional: se o desenvolvimento econômico depende também de recursos e decisões públicas, como garantir que seus resultados beneficiem diferentes grupos sociais?

Para os participantes, essa reflexão envolve tanto o fortalecimento da produção empresarial quanto as oportunidades destinadas aos agricultores familiares e às comunidades rurais.

A expansão agrícola e os novos conceitos sobre a Amazônia

Um dos aspectos mais marcantes da palestra foi a apresentação de conceitos utilizados pelo pesquisador para interpretar as transformações territoriais.

Ricardo Gilson destacou os processos de desamazonização, matogrossização, rondonização e agrobanditismo, empregados em sua abordagem acadêmica para explicar diferentes dinâmicas da expansão econômica.

A desamazonização foi apresentada como um processo de transformação das características ambientais, territoriais e culturais que historicamente identificam a Amazônia.

Nessa perspectiva, a substituição da vegetação nativa, as mudanças no uso do solo e a reorganização das relações econômicas podem alterar não apenas a paisagem, mas também os modos de vida das comunidades.

A matogrossização, por sua vez, foi associada à expansão de padrões produtivos semelhantes aos encontrados em regiões de grandes monoculturas, com propriedades extensas e forte integração aos mercados agrícolas.

O conceito de rondonização foi utilizado para analisar o deslocamento de produtores e de práticas de ocupação territorial de Rondônia em direção a novas áreas agrícolas, especialmente no sul do Amazonas e em partes do Acre.

Já o termo agrobanditismo foi empregado pelo professor em uma perspectiva crítica, relacionada a práticas ilegais de ocupação, apropriação de terras, violência e crimes ambientais atribuídos a determinados agentes. O conceito não deve ser confundido com uma classificação generalizada de toda a atividade agropecuária.

Os conceitos apresentados demonstram uma preocupação central do pesquisador: compreender como as decisões econômicas podem modificar a organização dos territórios e influenciar a vida das populações.

Ao discutir a força econômica, política e cultural do agronegócio no estado, Ricardo Gilson fez uma afirmação que chamou atenção:

"É mais fácil aqui em Rondônia duvidar de Deus do que do agro."

A declaração foi utilizada em tom crítico para questionar a dificuldade de debater determinados modelos de desenvolvimento em uma sociedade cuja identidade econômica está fortemente relacionada à produção agropecuária.

A provocação permite uma reflexão importante: reconhecer os resultados positivos de um setor econômico significa que suas práticas, políticas e consequências não possam ser discutidas?

Para o conhecimento científico, a avaliação de qualquer atividade exige abertura à investigação, ao contraditório e à análise de evidências.

O próprio pesquisador ressaltou esse princípio:

"Nós da ciência, nós estudamos com dados."

Soja, café e a pergunta sobre quem permanece no campo

A expansão da produção agrícola foi um dos temas centrais da palestra, principalmente pela diferença entre o uso territorial das grandes culturas e o das propriedades familiares.

Ricardo Gilson apresentou estimativas segundo as quais a soja estaria se aproximando de 700 mil hectares cultivados em Rondônia, enquanto a cafeicultura ocuparia aproximadamente 60 mil hectares.

Os números foram utilizados para demonstrar diferenças de escala produtiva e levantar questionamentos sobre a concentração fundiária e a utilização das terras.

O professor destacou que a cafeicultura possui importância econômica e social para milhares de famílias rurais.

Segundo sua análise, avanços tecnológicos, melhorias na produtividade e maior rentabilidade contribuíram para transformar as condições de vida de muitos produtores de café.

O pesquisador reconheceu que essas mudanças permitiram a agricultores familiares ampliar a renda, investir nas propriedades, adquirir equipamentos, melhorar a qualidade de vida e proporcionar oportunidades educacionais aos filhos.

Essa observação revela que a modernização agrícola também pode fortalecer pequenos produtores quando existe acesso à tecnologia, financiamento e condições adequadas de comercialização.

Entretanto, o professor manifestou preocupação com a redução da diversidade produtiva em determinadas regiões.

Culturas como arroz e feijão, tradicionalmente presentes em propriedades familiares, foram mencionadas como exemplos de atividades que perderam espaço diante da reorganização econômica do campo.

Nos debates, participantes também questionaram uma possível contradição: para continuar na propriedade, muitas famílias precisam concentrar seus esforços em produtos comercialmente mais rentáveis, reduzindo a diversidade de alimentos produzidos.

O café foi utilizado como exemplo dessa dinâmica.

A especialização pode ampliar a renda, mas também pode aumentar a dependência de preços de mercado, custos de produção e condições de comercialização.

Isso não significa que a produção comercial seja negativa, mas demonstra a importância de discutir alternativas que conciliem rentabilidade, segurança alimentar e diversificação econômica.

Como garantir que o agricultor familiar tenha renda suficiente para permanecer no campo sem perder a capacidade de produzir diferentes alimentos?

Essa foi uma das principais reflexões despertadas pelo encontro.

Êxodo rural: Rondônia produz mais, mas perde moradores no campo

Outro assunto de destaque foi a redução da população rural e seus efeitos sobre a organização econômica e social dos municípios.

Ricardo Gilson apresentou levantamentos sobre as mudanças demográficas registradas entre os censos de 2010 e 2022.

Segundo os números mencionados na palestra, em aproximadamente 45 dos 52 municípios rondonienses a população rural não teria apresentado crescimento.

O pesquisador também citou uma redução próxima de 18% da população residente no campo, relacionando o fenômeno às transformações na estrutura produtiva e no mercado de terras.

Esses dados foram apresentados na exposição e precisam ser confirmados nas bases oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na interpretação do professor, a expansão das atividades agrícolas de grande escala pode ocorrer simultaneamente à diminuição do número de pessoas necessárias para desenvolver determinadas etapas da produção.

A mecanização, os avanços tecnológicos e a concentração de atividades produtivas são elementos que ajudam a compreender essa mudança, embora não sejam os únicos fatores envolvidos.

A saída de jovens em busca de formação profissional, a dificuldade de sucessão familiar, a valorização das propriedades e a busca por melhores serviços públicos também podem contribuir para o deslocamento populacional.

Durante a palestra, o pesquisador relatou situações de agricultores que venderam pequenas propriedades em Rondônia para adquirir áreas maiores em regiões do Amazonas e do Acre.

Esses movimentos demonstram que as mudanças no campo ultrapassam os limites administrativos do estado e fazem parte de uma reorganização econômica mais ampla.

O fenômeno também desperta preocupações sobre o futuro dos pequenos municípios.

Quando uma família deixa uma comunidade rural, a mudança pode alcançar diferentes setores: comércio, transporte, escolas, serviços públicos e atividades econômicas locais.

A reflexão apresentada é que o aumento da produção não deve ser analisado isoladamente das condições de vida da população.

Um município pode ampliar sua produção agropecuária e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades para manter moradores, escolas e serviços em suas comunidades rurais.

Essa possibilidade exige pesquisas que permitam compreender quais fatores estão provocando os deslocamentos e quais políticas podem oferecer alternativas às famílias.

Educação do campo: quando uma escola fecha, o que acontece com a comunidade?

A educação apareceu como uma das principais preocupações dos participantes.

Durante os debates, foram discutidos o fechamento de escolas rurais, a dificuldade de acesso ao ensino e a relação entre educação e permanência das famílias nas propriedades.

Um dos participantes apresentou uma declaração que sintetizou a dimensão social do problema:

"Quando se fecha uma escola no campo, acaba com a alma da comunidade."

A frase destacou o papel das escolas como espaços de convivência, construção de vínculos e preservação da identidade comunitária.

Para muitas famílias, a presença de uma escola próxima representa uma condição importante para continuar vivendo na área rural.

Quando o acesso à educação depende de longos deslocamentos ou da mudança para a cidade, a permanência no campo pode se tornar mais difícil.

O debate também levantou questões sobre a formação dos jovens.

A educação precisa preparar os estudantes para oportunidades profissionais diversas, mas também pode contribuir para valorizar a realidade rural e desenvolver conhecimentos relacionados à produção agrícola, ao meio ambiente e à organização comunitária.

A discussão não significa que os jovens devam ser obrigados a permanecer na atividade dos pais.

O desafio é garantir que essa permanência seja uma escolha possível, com renda, infraestrutura, acesso à tecnologia e perspectivas de desenvolvimento.

Nesse contexto, a Educação do Campo foi apresentada como um instrumento de fortalecimento social e de valorização das comunidades rurais.

A questão central é permitir que estudar, conquistar uma profissão e melhorar de vida não signifique, necessariamente, abandonar o território de origem.

Agricultura camponesa: resistência, transformação e futuro

Durante a etapa de debates, os participantes discutiram se a agricultura camponesa conseguirá manter sua relevância diante das mudanças econômicas e tecnológicas.

Ricardo Gilson reconheceu as dificuldades estruturais enfrentadas por pequenos produtores, mas rejeitou a ideia de que o campesinato esteja destinado a desaparecer.

"O campesinato não vai desaparecer."

A declaração foi acompanhada de reflexões sobre a necessidade de transformação das formas de produção, organização e comercialização.

O professor destacou que as famílias rurais podem se adaptar às mudanças econômicas por meio de novas tecnologias, melhorias produtivas e participação em mercados.

Entretanto, ressaltou que essas alternativas também dependem de investimentos e apoio institucional.

Na avaliação apresentada, o fortalecimento da agricultura familiar exige políticas que considerem suas particularidades, especialmente em relação à escala produtiva, à disponibilidade de capital e à utilização da mão de obra familiar.

Ao comentar a importância da participação estatal, afirmou:

"Com política pública você produz mais."

A frase foi utilizada para defender investimentos em pesquisa, assistência técnica, extensão rural e desenvolvimento de tecnologias adequadas às necessidades dos agricultores.

O debate também demonstrou que o futuro do campesinato não depende exclusivamente das decisões individuais dos produtores.

Questões relacionadas ao acesso à terra, às condições de financiamento, ao preço dos produtos e à infraestrutura podem influenciar diretamente a viabilidade econômica das propriedades.

A reflexão que emerge é que a agricultura familiar precisa ser analisada não apenas como uma tradição histórica, mas também como uma atividade econômica que necessita de condições para competir, inovar e gerar renda.

Conflitos fundiários e a disputa pelo território amazônico

Os conflitos por terra estiveram entre os assuntos mais sensíveis da programação.

Ricardo Gilson apresentou análises sobre disputas territoriais registradas em diferentes regiões da Amazônia, incluindo áreas do norte de Rondônia, do sul do Amazonas e da região de fronteira com o Acre.

Segundo o professor, a valorização fundiária e a expansão das atividades produtivas podem intensificar pressões sobre propriedades, terras públicas, assentamentos e territórios tradicionalmente ocupados por diferentes comunidades.

O pesquisador mencionou levantamentos que apontariam mais de uma centena de áreas em situação de conflito fundiário em Rondônia.

Também destacou que parte das mobilizações ocorre por iniciativa de famílias e grupos autônomos, sem necessariamente manter vínculos formais com grandes movimentos sociais.

Na avaliação do professor, essas disputas revelam questões históricas relacionadas ao acesso à terra e aos resultados do processo de colonização.

"A estrutura fundiária com a colonização, ela não foi resolvida."

A declaração sintetizou sua interpretação de que problemas históricos de regularização, ocupação e distribuição territorial permanecem presentes.

Durante os debates, um dos participantes abordou o conceito de grilagem institucionalizada, relacionando o tema a possíveis irregularidades em registros e processos de aquisição de propriedades.

Foram mencionados o Cadastro Ambiental Rural (CAR), o georreferenciamento e outros instrumentos administrativos utilizados na identificação e organização de informações fundiárias.

O debate levantou preocupações sobre situações em que documentos poderiam ser empregados para conferir aparência de legalidade a ocupações irregulares.

Também foram apresentados relatos sobre possíveis pressões territoriais e casos envolvendo pulverização de agrotóxicos em comunidades rurais e indígenas.

Essas manifestações devem ser compreendidas como relatos e análises dos participantes. Eventuais irregularidades específicas exigem comprovação documental, investigações dos órgãos competentes e oportunidade de manifestação dos envolvidos.

A discussão evidencia uma questão fundamental para o desenvolvimento econômico: a segurança jurídica da propriedade e a proteção dos direitos territoriais são elementos essenciais para a estabilidade social e para o planejamento de investimentos.

Preservação ambiental e os direitos dos povos da Amazônia

A relação entre desenvolvimento econômico e conservação ambiental recebeu atenção especial durante o seminário.

Ricardo Gilson abordou a importância das terras indígenas, das unidades de conservação e dos territórios ocupados por comunidades tradicionais.

O pesquisador destacou que esses espaços possuem significado ambiental, histórico, cultural e social.

Entre os casos mencionados esteve a Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Rondônia, utilizada como exemplo dos desafios relacionados à proteção ambiental, à ocupação territorial e às disputas jurídicas.

O professor também fez referência ao indígena conhecido como Homem do Buraco, último sobrevivente de seu povo, associado à Terra Indígena Tanaru, no sul do estado.

O episódio foi apresentado como uma reflexão sobre a violência histórica sofrida por povos originários e a importância da proteção de seus territórios.

Durante a exposição, o pesquisador questionou modelos econômicos que consideram a natureza apenas como fonte de recursos a serem explorados.

Sua análise defendeu a necessidade de reconhecer outras formas de conhecimento e de relação com o ambiente.

Ao comentar a experiência de povos que vivem em contato direto com a floresta, afirmou:

"A natureza educa."

A declaração reforçou a valorização de conhecimentos tradicionais sobre os ciclos naturais, a utilização de recursos e a conservação dos ecossistemas.

O debate também levanta uma pergunta relevante: como transformar a riqueza natural da Amazônia em oportunidades econômicas sem comprometer os recursos que sustentam a vida e diferentes atividades produtivas?

A resposta envolve planejamento, ciência, fiscalização, inovação e reconhecimento dos direitos das populações.

BR-364, Hidrovia do Madeira e os caminhos do desenvolvimento

A infraestrutura de transporte foi apresentada como um dos fatores que ajudam a explicar o crescimento agrícola de Rondônia e a integração com outras regiões brasileiras.

Ricardo Gilson destacou o papel da BR-364 e da Hidrovia do Madeira no escoamento da produção e na ampliação das conexões comerciais.

Segundo sua análise, a melhoria dos corredores logísticos contribuiu para a expansão de atividades agrícolas e para o aumento da competitividade dos produtos destinados a mercados nacionais e internacionais.

A BR-364 recebeu atenção especial por sua relevância econômica e pelas dificuldades relacionadas à segurança rodoviária.

O pesquisador relatou problemas enfrentados durante uma viagem até Rolim de Moura, quando acidentes envolvendo veículos de carga provocaram interrupções no trânsito.

Ele reconheceu a necessidade de melhorias na rodovia e discutiu a importância dos investimentos em infraestrutura.

Entretanto, ressaltou que os projetos também devem considerar as consequências ambientais e territoriais das novas rotas de transporte.

A discussão apresentou um desafio recorrente no desenvolvimento amazônico: ampliar a infraestrutura necessária à economia e, simultaneamente, estabelecer mecanismos capazes de reduzir impactos negativos.

Isso significa que obras de transporte precisam ser acompanhadas de planejamento, estudos ambientais, segurança e participação das comunidades afetadas.

O debate permite compreender que infraestrutura e preservação não precisam ser tratadas como objetivos necessariamente opostos, mas como dimensões que exigem avaliação técnica e decisões públicas responsáveis.

O poder econômico, a comunicação e a formação do pensamento crítico

Durante as perguntas, participantes também discutiram a influência da publicidade, dos meios de comunicação e das narrativas econômicas sobre a opinião pública.

Um dos questionamentos apresentados tratou da força das campanhas de valorização do agronegócio e de como determinados discursos podem influenciar a maneira pela qual a sociedade interpreta o desenvolvimento rural.

A discussão não negou a importância da comunicação para divulgar conquistas produtivas, tecnologias e resultados econômicos.

O ponto levantado foi a necessidade de distinguir comunicação institucional, publicidade, opinião e conhecimento científico.

Em qualquer setor econômico, campanhas publicitárias podem destacar benefícios e resultados positivos. Entretanto, compreender os impactos de uma atividade exige também informações sobre custos, limitações e consequências.

Essa reflexão se aplica ao agronegócio, à indústria, ao comércio, à mineração e às políticas públicas.

O pensamento crítico não consiste em rejeitar previamente determinado setor, mas em formular perguntas, examinar evidências, considerar diferentes interpretações e reconhecer a complexidade dos problemas.

Nesse sentido, a participação das universidades foi destacada como instrumento para ampliar o acesso ao conhecimento e fortalecer a capacidade de análise da sociedade.

Universidade pública e ciência: conhecimento para transformar a realidade

Outro tema relevante foi o papel das instituições de ensino superior no desenvolvimento regional.

Ricardo Gilson destacou a importância das políticas públicas educacionais, da ampliação das universidades e dos institutos federais e das oportunidades de formação profissional.

O professor relacionou o acesso à educação superior às possibilidades de mobilidade social de estudantes provenientes de famílias trabalhadoras.

Na avaliação apresentada, o fortalecimento das instituições públicas permite ampliar a formação acadêmica, o desenvolvimento científico e a produção de tecnologias que podem beneficiar diferentes setores econômicos.

A discussão também abordou a importância de pesquisas voltadas aos problemas concretos de Rondônia, como a agricultura familiar, os conflitos fundiários, as mudanças demográficas e os impactos ambientais.

Ao comentar a necessidade de estudar a realidade social, o pesquisador afirmou:

"Se não se pesquisa, a gente também não conhece a realidade."

A declaração reforçou a importância da investigação científica para orientar debates públicos e contribuir para a formulação de políticas.

O conhecimento produzido nas universidades pode oferecer informações sobre produtividade, uso da terra, qualidade ambiental, distribuição populacional e diferentes questões que influenciam o desenvolvimento.

Entretanto, os participantes também destacaram que a produção acadêmica precisa alcançar as comunidades e dialogar com a sociedade.

Uma pesquisa pode apresentar resultados relevantes, mas seu impacto social depende também da capacidade de compartilhar conhecimentos e contribuir para soluções práticas.

Encerramento reforça a importância do diálogo e da participação social

Nas considerações finais, o professor Fernando Bilhalva apresentou um balanço das discussões realizadas ao longo do seminário.

Ele destacou que a questão agrária brasileira envolve processos históricos e sociais complexos, que não podem ser explicados exclusivamente por indicadores de crescimento econômico.

O professor também mencionou as contribuições de Manuel, responsável por uma exposição durante a programação da manhã, relacionada à formação territorial brasileira.

Segundo Fernando Bilhalva, os debates demonstraram a necessidade de compreender como as transformações econômicas atuais se relacionam com estruturas históricas de ocupação, produção e distribuição da riqueza.

O professor chamou atenção para a importância de diferentes perspectivas nos espaços acadêmicos e para a necessidade de preservar o diálogo diante de divergências.

Em sua avaliação, a universidade deve ser um ambiente de debate, construção de conhecimento e reflexão sobre os problemas da sociedade.

Um dos pontos de sua fala foi a reflexão sobre a possibilidade de construir "uma universidade próxima do povo ou afastada do povo".

A declaração ressaltou a importância de aproximar pesquisas e atividades acadêmicas das comunidades rurais, das escolas do campo, das populações indígenas e das comunidades tradicionais.

Fernando Bilhalva também destacou a necessidade de ampliar os espaços de discussão e de fortalecer a participação social.

Ao abordar a responsabilidade do conhecimento científico, apresentou uma reflexão que sintetizou a dimensão humana do encontro:

"Se a ciência e se o conhecimento não está a serviço da vida, então ele realmente está a serviço da morte ou não serve para nada."

A frase foi apresentada durante suas considerações finais e expressou a preocupação com o papel social da ciência e com os objetivos que orientam a produção do conhecimento.

Entre produzir mais e viver melhor: o que o seminário deixa para Rondônia?

As discussões realizadas no seminário da UNIR demonstraram que o desenvolvimento rural de Rondônia envolve desafios que ultrapassam a expansão das atividades produtivas.

O crescimento da agricultura, o fortalecimento das exportações e os investimentos em infraestrutura representam dimensões importantes da economia estadual.

Ao mesmo tempo, questões como a permanência das famílias no campo, a proteção ambiental, a regularização fundiária, a educação rural e a distribuição de oportunidades também influenciam o futuro dos municípios.

Um dos principais méritos do encontro foi apresentar essas questões de maneira integrada, relacionando processos históricos, políticas públicas, transformações econômicas e experiências das comunidades.

As análises expostas refletem uma perspectiva acadêmica crítica sobre o atual modelo de desenvolvimento e devem ser examinadas em diálogo com outros estudos, dados oficiais e interpretações de diferentes setores da sociedade.

Isso é especialmente importante em Rondônia, onde a produção agropecuária possui papel expressivo na economia e a agricultura familiar mantém relevância social e produtiva em diversos municípios.

Na Zona da Mata, por exemplo, a permanência dos jovens nas propriedades, a valorização da cafeicultura, o acesso à tecnologia e a manutenção das comunidades rurais são temas diretamente relacionados às perspectivas de desenvolvimento regional.

A discussão também demonstra que o futuro do campo não depende apenas da quantidade produzida ou da área cultivada.

Depende das condições econômicas, da qualidade dos serviços públicos, das oportunidades educacionais, da segurança jurídica e das possibilidades de as famílias construírem seus projetos de vida.

Ao final, o seminário deixou perguntas que merecem permanecer no debate público:

  • Quem são os principais beneficiados pelas transformações econômicas do campo?
  • O aumento da produtividade está acompanhado da melhoria das condições de vida das comunidades?
  • Como fortalecer a agricultura familiar e garantir oportunidades para os jovens?
  • Quais políticas podem conciliar segurança jurídica, produção agrícola e proteção ambiental?
  • Como fazer com que a ciência produzida nas universidades contribua para os problemas reais da população?

Essas questões não possuem respostas simples e exigem diálogo, investigação e responsabilidade na formulação de políticas públicas.

O principal desafio não é escolher entre produzir ou preservar, entre modernizar ou manter tradições. É construir condições para que o desenvolvimento econômico esteja acompanhado de oportunidades sociais, respeito aos direitos e responsabilidade ambiental.

Afinal, o verdadeiro alcance do progresso também deve ser avaliado pela capacidade de melhorar a vida das pessoas, fortalecer as comunidades e preservar oportunidades para as próximas gerações.


INFORMAÇÕES DO EVENTO

Evento: Seminário Questão Agrária, Território e Agricultura Camponesa em Rondônia.

Data: 21 de outubro de 2026.

Local: Auditório da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Rolim de Moura (RO).

Palestra 2: Contextualização da Formação do Campesinato em Rondônia e os Desafios Atuais da Agricultura Camponesa.

Palestrante: Prof. Dr. Ricardo Gilson da Costa Silva — UNIR, coordenador do GTGA.

Mediação: Profa. Dra. Tatiane Rodrigues de Souza — UNIR.

Participação no encerramento: Professor Fernando Bilhalva.

Tema do seminário: Por territórios vivos, por agricultura camponesa, por um futuro sustentável na Amazônia!


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